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O Brasil já teve o seu presidente negro? Se não, ele poderá ser um cotista?
As edições deste domingo, 23 de novembro, da Folha de S.Paulo e do Correio (da Bahia) tiveram como destaque em suas manchetes, respectivamente, a diminuição do preconceito racial no Brasil e os bons resultados obtidos por universitários cotistas. Em um caderno especial, a Folha celebra o crescimento do número de pessoas que se autoidentificam como pretos ou pardos, em relação a 1995, quando publicou o famoso caderno Racismo Cordial. O Correio trouxe como matéria de capa estudantes que chegaram à universidade através das cotas e cujos desempenhos são melhores do que os de alunos não-cotistas. As duas publicações voltaram ao tema no primeiro domingo após o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, e 19 dias depois que os Estados Unidos elegeram um afrodescendente para chefiar a nação mais poderosa do mundo a partir de janeiro de 2009.
Vale a pena pinçar algumas informações ressaltadas por ambos os jornais. Apesar da pela clara de Luis Inácio Lula da Silva, o atual presidente da República foi considerado pardo por 42% dos entrevistados pelo Datafolha. Ou seja, para quase metade dos brasileiros consultados pela pesquisa, o País elegeu um presidente negro em 2003 (para o IBGE, os negros são a soma de pretos e pardos), cinco anos antes da eleição histórica de Barack Obama. Por outro lado, apenas 17% dos entrevistados pelo instituto acham que Fernando Henrique Cardoso, cujo tom de pele não difere tanto do de Lula, seja pardo. A propósito, para a Ku Klux Klan, Obama é mestiço e não preto.
O texto que ancora os resultados do Datafolha aponta “uma espécie de daltonismo” entre os entrevistados, uma vez que as definições sobre a cor de 11 celebridades trouxeram avaliações que destoam, em alguma medida, da autodeclaração e de critérios razoáveis para a justificação da branquidade ou da negritude de certas personagens. Fonte da matéria, O historiador Luiz Felipe de Alencastro anota que os entrevistados levam em consideração não apenas a pigmentação da pele, mas o nível intelectual e a posição que a pessoa ocupa na sociedade. Uma possível explicação para a disparidade entre os que acham Lula e FHC pardos.
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A edição do Correio, por sua vez, enaltece os bons resultados obtidos na academia por estudantes que chegaram ao terceiro grau através do sistema de cotas. O texto mostra que em alguns casos o desempenho é melhor do que o dos não-cotistas, o que jogaria definitivamente por terra os argumentos contrários à adoção de cotas raciais.
Apesar de registrar os progressos obtidos por negros, cotistas ou não, na universidade, o jornal ressalta que, uma vez lá, as dificuldades persistem. Algumas, relacionadas à cor da pele, como a desconfiança que ainda suscita-se sobre a capacidade profissional dos negros em certas áreas. Outras, nem tanto, como o dinheiro para se manter na universidade ao longo de qutro ou seis anos. Dificuldades que afligem estudantes com diferentes tons de pele. Jovens que, mesmo sem saber se vão conseguir concluir o curso, conseguem superar alunos da classe média.
Não é difícil acreditar no bom desempenho de cotistas. De fato, um lavador de carro que fez vestibular, animado pelo novo sistema, classificou-se em primeiro lugar na colocação geral. Mas surge a dúvida: o que manteve jovens talentos saídos da pobreza por tanto tempo longe da universidade? Apenas a falta de fé em seu potencial ou um vestibular incapaz de avaliar os estudantes mais capacitados? O sistema de cotas é o ideal? As cotas devem ser raciais? As cotas vão assegurar a redução das desigualdades? Se para chegar à presidência fosse exigível o diploma de nível superior e se o metalúrgico Lula, agora classificado como pardo, teria conseguido entrar para a universidade pelo sistema de cotas?
White power, black power? No, human shame
Episódios recentes, no Brasil e em outros países, envolvendo a cor da pele ou a suposta diferença racial levam a pensar que, antes de ter orgulho de ser negro, branco, índio ou amarelo, uma pessoa de bom senso deveria estar envergonhada de sua condição de ser humano.
O caso mais rumoroso de exaltação racista veio da boca de um geneticista estadunidense, vencedor do Prêmio Nobel, que declarou na Inglaterra a inferioridade intelectual dos africanos em relação aos europeus e, por extensão, aos brancos que se espalharam pelo mundo.
Sem apresentar qualquer dado científico, James Watson declarou que “qualquer pessoa que tenha convivido com empregados negros” sabe das suas limitações intelectuais. A instituição que convidara o geneticista racista para uma palestra cancelou o evento afirmando que as declarações do cientista foram além do tolerável. Uma escritora inglesa Sue Blackmore, então, publicou em seu blog no jornal Guardian um artigo em protesto contra a decisão, com o título “Não silencie os cientistas”.
No Brasil, o site Terra Magazine publicou uma matéria em que o ex-vice presidente do Grêmio acusou o presidente do time de racismo, por se dirigir a quatro homens negros, parentes do vice que foram ao estádio, como se fossem seguranças. Ao se defender, o presidente do Grêmio, Paulo Odone, disse que era um absurdo ser chamado de racista, pois seu motorista é negro e também a senhora que toma conta dos seus filhos é negra.
Nos Estados Unidos, em duas universidades houve hostilizações raciais que culminaram com a colocação de cordas de enforcamento em ambientes que tinham sido visitados por negros, uma professora em Nova York e um estudante em Jena, Louisiana, região tradicionalmente racista, onde seis rapazes negros foram presos após agressão física a um branco. A justiça considerou que os brancos que colocaram as cordas não poderiam ser processados, pois não haveria legislação específica sobre o assunto.
Um rápido giro pela internet mostra que raça de gente somos. Hutus e Tutsis em Ruanda, árabes na França, nordestinos no Sudeste, turcos na Alemanha, latino-americanos na Espanha, curdos entre o Iraque e a Turquia, judeus ortodoxos que oprimem palestinos e que, agora, sofrem em seu próprio país agressões de imigrantes russos neonazistas (alguns deles judeus). Um nazi arrependido de São Paulo declarou ao jornalista Roberto Cabrini que existem células neonazistas em São Paulo, na Região Sul e, pasmém, na Bahia! O preconceito faz crer que só pode ser no oeste baiano. Muita plantação de soja transgênica…