Aécio aposta em aproximação com PT
Em entrevista ao Canal Livre, da Band, do dia 7 de dezembro, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves deixou claro que pretende uma aproximação entre o seu partido, o PSDB, e o PT após as eleições presidenciais de 2010. Os motivos são muitos: segundo a sua aanálise, à exceção da briga imediata pelo poder em Brasília as duas legendas têm muito em comum. Tanto que fizeram coligação em 20% dos municípios nas últimas eleições, inclusive em Belo Horizonte, onde elegeram Márcio Lacerda, do PSB.
O governador disse que não acraedita que as duas legendas fiquem eternamente em campos opostos, elogiou o Governo Lula e, sem dar nome aos bois, mencionou o incômodo pelas alianças atuais feitas pelos dois partidos.
Mas o grande empecilho para a aproximação entre os dois é a disputa política em São Paulo, estado que domina a política nacional desde 1994, quando terminou o mandato do mineiro Itamar Franco, e terra de José Serra, favorito para ser o candidato tucano em 2010.
Ao pontuar que São Paulo tem o presidente da República por 16 anos, sendo 8 de FHC e 8 de Lula, Aécio declarou também que o PSDB não agüenta mais perder eleições, referência clara ao desempenho tucano em 2002 com o paulista Serra e em 2006, com o paulista Alckmin. Mas assim como soa impossível uma aliança entre PT e PSDB para 2010, parece improvável que Aécio seja o primeiro presidente tucano a contar com o apoio petista, a partir de 2011.
O Brasil já teve o seu presidente negro? Se não, ele poderá ser um cotista?
As edições deste domingo, 23 de novembro, da Folha de S.Paulo e do Correio (da Bahia) tiveram como destaque em suas manchetes, respectivamente, a diminuição do preconceito racial no Brasil e os bons resultados obtidos por universitários cotistas. Em um caderno especial, a Folha celebra o crescimento do número de pessoas que se autoidentificam como pretos ou pardos, em relação a 1995, quando publicou o famoso caderno Racismo Cordial. O Correio trouxe como matéria de capa estudantes que chegaram à universidade através das cotas e cujos desempenhos são melhores do que os de alunos não-cotistas. As duas publicações voltaram ao tema no primeiro domingo após o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, e 19 dias depois que os Estados Unidos elegeram um afrodescendente para chefiar a nação mais poderosa do mundo a partir de janeiro de 2009.
Vale a pena pinçar algumas informações ressaltadas por ambos os jornais. Apesar da pela clara de Luis Inácio Lula da Silva, o atual presidente da República foi considerado pardo por 42% dos entrevistados pelo Datafolha. Ou seja, para quase metade dos brasileiros consultados pela pesquisa, o País elegeu um presidente negro em 2003 (para o IBGE, os negros são a soma de pretos e pardos), cinco anos antes da eleição histórica de Barack Obama. Por outro lado, apenas 17% dos entrevistados pelo instituto acham que Fernando Henrique Cardoso, cujo tom de pele não difere tanto do de Lula, seja pardo. A propósito, para a Ku Klux Klan, Obama é mestiço e não preto.
O texto que ancora os resultados do Datafolha aponta “uma espécie de daltonismo” entre os entrevistados, uma vez que as definições sobre a cor de 11 celebridades trouxeram avaliações que destoam, em alguma medida, da autodeclaração e de critérios razoáveis para a justificação da branquidade ou da negritude de certas personagens. Fonte da matéria, O historiador Luiz Felipe de Alencastro anota que os entrevistados levam em consideração não apenas a pigmentação da pele, mas o nível intelectual e a posição que a pessoa ocupa na sociedade. Uma possível explicação para a disparidade entre os que acham Lula e FHC pardos.
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A edição do Correio, por sua vez, enaltece os bons resultados obtidos na academia por estudantes que chegaram ao terceiro grau através do sistema de cotas. O texto mostra que em alguns casos o desempenho é melhor do que o dos não-cotistas, o que jogaria definitivamente por terra os argumentos contrários à adoção de cotas raciais.
Apesar de registrar os progressos obtidos por negros, cotistas ou não, na universidade, o jornal ressalta que, uma vez lá, as dificuldades persistem. Algumas, relacionadas à cor da pele, como a desconfiança que ainda suscita-se sobre a capacidade profissional dos negros em certas áreas. Outras, nem tanto, como o dinheiro para se manter na universidade ao longo de qutro ou seis anos. Dificuldades que afligem estudantes com diferentes tons de pele. Jovens que, mesmo sem saber se vão conseguir concluir o curso, conseguem superar alunos da classe média.
Não é difícil acreditar no bom desempenho de cotistas. De fato, um lavador de carro que fez vestibular, animado pelo novo sistema, classificou-se em primeiro lugar na colocação geral. Mas surge a dúvida: o que manteve jovens talentos saídos da pobreza por tanto tempo longe da universidade? Apenas a falta de fé em seu potencial ou um vestibular incapaz de avaliar os estudantes mais capacitados? O sistema de cotas é o ideal? As cotas devem ser raciais? As cotas vão assegurar a redução das desigualdades? Se para chegar à presidência fosse exigível o diploma de nível superior e se o metalúrgico Lula, agora classificado como pardo, teria conseguido entrar para a universidade pelo sistema de cotas?
Eloá, Nayara, Lindemberg, a mídia e a PM: como em Alpha Dog
Uma semana depois do disparo que tirou a vida da adolescente Eloá, o mais recente crime acompanhado em tempo real pela mídia continua gerando considerações e artigos. Decidi escrever algumas linhas sobre o caso depois que um policial admitiu, em depoimento na delegacia, que talvez o rapaz não tivesse feito nenhum disparo antes que a polícia invadisse o apartamento.
A declaração, que contradiz a versão inicial de que os policiais agirem depois de ouvir tiros, aconteceu depois que Nayara saiu do hospital garantindo que não houve disparos antes da invasão. Somem-se a esse desmentido, o gesto criminosamente doentio de um rapaz que não aceita ser rejeitado, a falta de escrúpulos da mídia, o pedido de Nayara que queria receber no hospital a visita de Alexandre Pato, a intenção da família dela de pedir indenização de dois milhões de reais, as milhões de pessoas que passaram a semana garantindo audiência ao seqüestro transmitido ao vivo
O resultado é que, assim como os traficantes adolescentes de Alpha Dog, que raptaram um garoto para intimidar um cara que lhes devia dinheiro, quase ninguém que se envolveu no Caso Eloá tinha dimensão do que estava acontecendo ao seu redor. Para quem está fora desse esquema doentio, resta torcer para que uma bala não seja apontada nas nossas cabeças. E que se isso acontecer, não apareçam a mídia e pessoas em busca de recompensas materiais para os seus infortúnios.
PT e DEM têm crise de identidade
O recente episódio da blindagem de um veículo da frota oficial do Estado da Bahia trouxe à luz a inadequação do PT regional ao papel de governo e, por outro lado, o desconforto do DEM, ex-PFL, em ser oposição. A história começa com a decisão de se usarem R$ 44 mil para blindar um carro usado por autoridades, enquanto a população sofre com uma tremenda insegurança pública. A repercussão dos gastos. publicados no Diário Oficial do Estado, provocou uma seqüência de reações ilustrativa.
A oposição reclama da iniciativa, o governador Jaques Wagner se irrita e diz que é mesquinharia política, parte da oposição se diverte com a inexperiência atribuída ao chefe do executivo, que poderia ter evitado a saraivada de críticas lançando mão de verbas secretas, e finalmemte o ex-governador Paulo Souto entra no circuito para condenar a reação de seu sucessor às críticas. Souto afirma que a postura de Wagner tende ao autoritarismo, por não aceitar questionamentos.
Com ou sem blindagem, quase dois anos depois da eleição que decretou a última derrota eleitoral de Antonio Carlos Magalhães, morto em 2007, o seu Democratas e o PT ainda não encontraram os seus discursos e ações para o pós-carlismo. Os petistas, que reclamam da herança recebida do antigo PFL ainda não propôs nada novo (e consistente) em termos de administracão do Estado. O Democratas, que se arvora a criador de todas as benfeitorias na Bahia, se diverte com os erros do governo, esperando pelo momento de retomar a cadeira que, ainda não sabe como, deixou de ser sua em 2006.
Naturalmente, o incômodo maior é com a crise de identidade de quem está no governo. A sensacão de que depois de meio mandato não há projetos, como vaticinava nos primeiros dias da administração de Wagner o então pefelista senador César Borges, que por pouco não foi ao SAC encomendar uma nova identidade, petista, mas acabou definitivamente na oposição a Wagner.
O problema, então, não é a blindagem de um veículo. Mas a noção de que, um ano e oito meses depois, o Governo Jaques Wagner ainda não tomou posse, que Paulo Souto ainda não se deu conta de que seu mandato acabou, e que os dois juntos parecem ter muito pouco a oferecer aos baianos.
Salvador, 15 de julho de 2008, 18h50, o Governo da Bahia finalmente se manifesta sobre escolha da Toyota pelo Estado de São Paulo…
Nota Pública
Ao receber o comunicado formal da direção da Toyota do Brasil, o Governo da Bahia manifesta o seu respeito pela decisão de implantação da segunda unidade da montadora no município de Sorocaba, São Paulo, a 20 quilômetros da unidade já em operação, e deseja pleno êxito à empresa.
Ao longo de mais de um ano de trabalho, a equipe técnica do Governo elaborou, com extremado profissionalismo, uma proposta atraente o bastante para manter a Bahia na disputa com São Paulo, depois de descartadas as propostas dos demais estados interessados. O mesmo esforço que tem logrado êxito em outros segmentos está e continuará sendo empreendido para manter e acelerar o desenvolvimento econômico da Bahia, gerando desenvolvimento com inclusão e criação de oportunidades para todos os baianos e baianas.
Governo da Bahia
Terra de Todos Nós
P.s. é um visionário…
O Bahia de Todos Nós?
Será que o Governo do Estado deveria mesmo estar tão empenhado em conseguir um estádio para o Bahia jogar? A ponto de reformar Pituaçu às pressas e interceder junto ao Vitória para que o Barradão seja emprestado ao tricolor? Será que Jaques Wagner não tem preocupações relevantes que lhe ocupem a agenda? Talvez o governo esteja sendo muito modesto em termos de publicidade, mas não consigo lembrar de uma obra importante que tenha sido planejada pela atual administração do Estado e que já esteja em execução, a não ser a reforma de um estádio de futebol. Talvez seja injustiça, mas ainda não dá para enxergar porque o presidente da Nestlé se referiu ao governador como um visionário. Talvez seja um religioso e tenha se referido às aparições de Fátima.
A terceira aparição de Fátima Mendonça
O Tribunal Superior Eleitoral deveria exigir que os candidatos a cargos públicos eletivos apresentassem os seus cônjuges à sociedade antes do pleito,deixando claro o que é que se pode esperar do casal. No caso dos atuais ocupantes do Palácio de Ondina, por exemplo, é impressionante a capacidade que a primeira-dama tem de abrir a boca para dar opinião sobre política. Ao ler a entrevista que a referida dama deu ao jornal A TARDE a primeira pergunta que me veio à mente foi: quem perguntou alguma coisa a essa mulher? A resposta veio imediata e desoladora: os jornalistas.
Que mania esse povo tem de tratar a mulher de um governador ou de um prefeito como se fosse uma liderança política. Ela foi eleita? Recebeu algum voto? Concorreu a algum cargo? Como cidadã, ela tem o direito de falar o que quiser. O que não dá para entender é a mania que se tem de dar destaque à fala de uma pessoa cujo único atributo é ser casada com o governador do Estado. A mulher do prefeito João Henrique, agora, depois de eleita deputada estadual, tem toda a legitimidade para falar o que quiser e ser levada em consideração. Ela foi votada.
Mas por quê dar tanto espaço na mídia a uma pessoa qualquer que resolveu dar a sua opinião sobre a administração pública? Se Fátima Mendonça acha que o governo do marido Jaques Wagner está muito devagar, tudo bem. Dá para considerar como informação relevante que o governador não está agradando nem em casa. Mas daí a achar que se deve ouvi-la a respeito da administração municipal ou das alianças políticas que se fazem é um desvio sério.
O Governo Wagner não foi eleito para ter uma primeira-dama falante. Foi eleito para resolver a insegurança pública, o caos na saúde, as péssimas condições de ensino na rede pública, a degradação do Centro Histórico, a superlotação das cadeias e outros problemas sociais. Sobre isso, ao que parece, o casal não tem muito a dizer. Foto: Ivan Erick/Agecom
A naturalização da barbárie: rapaz, foi um acidente
foto: Manu Dias/Agecom
Um casal de amigos aguarda civilizadamente, dentro do carro, até que o sinal abra, às 21 horas, na Avenida Garibaldi, em Salvador. Duas pessoas se preparam para atravessar a faixa de pedestres quando percebem um outro veículo se aproximando em altíssima velocidade, disputando um pega. Os pedestres dão dois passos atrás e observam o Audi pilotado por um jovem idiota chocar-se contra o carro do casal, capotar e destruir-se em um poste. Perda total nos dois veículos e, milagrosamente, nenhuma morte. Familiares dos dois motoristas chegam ao local e, logo depois, ao consenso de que foi um acidente. Para o desespero das vítimas, que apesar de obedecer às leis de trânsito, são colocadas no mesmo patamar de um playboyzinho imbecil que pensa ser piloto de Fórmula 1.
Seja qual for a contravenção cometida por alguém que não tenha folha corrida na polícia, vem a resposta pronta: foi uma fatalidade. Foi um acidente que sete pessoas tenham morrido ao cair da Fonte Nova, mesmo que os laudos feitos por um técnico da Sudesb apontassem para a urgência da interdição do estádio. O presidente do time que mandava seus jogos na Fonte Nova pediu, a direção da Sudesb acatou, o Governo do Estado não viu problemas e as sete pessoas morreram. Ninguém foi punido e o time deve ganhar de presente um estádio novinho da silva.
Mas o cúmulo da naturalização da barbárie talvez seja a implantação de uma unidade de atendimento a queimados na cidade de Cruz das Almas, para os festejos juninos. Somente este ano, 46 pessoas (crianças em sua maioria) ficaram queimadas com os fogos de artifício no Estado da Bahia, segundo dados preliminares. E o que faz o Governo do Estado? Gasta dinheiro na implantação de um centro de atendimento a queimados.
A justificativa do secretário estadual de Saúde, Jorge Solla, é um primor. Ao comentar a construção da unidade, Solla disse que Cruz das Almas é “uma região que tem produção de fogos, tradição de festas juninas e que agora pode receber todos os pacientes do Recôncavo Sul, bem mais próximo do que Salvador”. Ao invés de coibir a exposição de crianças a essa prática bárbara e assassina, o Governo do Estado investe R$ 310 mil para construção de uma unidade de queimados.
O que leva à conclusão de que se não fossem as exigências da Fifa para estádios que querem abrigar jogos de Copa do Mundo, o Governo não interviria na Fonte Nova. Apenas construiria um anexo para atendimento a pessoas com fraturas devido a quedas do anel superior. Resta saber se após a aprovação da lei federal que proíbe o consumo de álcool por motoristas, o Governo do Estado não vai considerar a legislação muito rigorosa e, em lugar de fiscalizar e punir, instale nas estradas baianas estandes de distribuição de Engov.
White power, black power? No, human shame
Episódios recentes, no Brasil e em outros países, envolvendo a cor da pele ou a suposta diferença racial levam a pensar que, antes de ter orgulho de ser negro, branco, índio ou amarelo, uma pessoa de bom senso deveria estar envergonhada de sua condição de ser humano.
O caso mais rumoroso de exaltação racista veio da boca de um geneticista estadunidense, vencedor do Prêmio Nobel, que declarou na Inglaterra a inferioridade intelectual dos africanos em relação aos europeus e, por extensão, aos brancos que se espalharam pelo mundo.
Sem apresentar qualquer dado científico, James Watson declarou que “qualquer pessoa que tenha convivido com empregados negros” sabe das suas limitações intelectuais. A instituição que convidara o geneticista racista para uma palestra cancelou o evento afirmando que as declarações do cientista foram além do tolerável. Uma escritora inglesa Sue Blackmore, então, publicou em seu blog no jornal Guardian um artigo em protesto contra a decisão, com o título “Não silencie os cientistas”.
No Brasil, o site Terra Magazine publicou uma matéria em que o ex-vice presidente do Grêmio acusou o presidente do time de racismo, por se dirigir a quatro homens negros, parentes do vice que foram ao estádio, como se fossem seguranças. Ao se defender, o presidente do Grêmio, Paulo Odone, disse que era um absurdo ser chamado de racista, pois seu motorista é negro e também a senhora que toma conta dos seus filhos é negra.
Nos Estados Unidos, em duas universidades houve hostilizações raciais que culminaram com a colocação de cordas de enforcamento em ambientes que tinham sido visitados por negros, uma professora em Nova York e um estudante em Jena, Louisiana, região tradicionalmente racista, onde seis rapazes negros foram presos após agressão física a um branco. A justiça considerou que os brancos que colocaram as cordas não poderiam ser processados, pois não haveria legislação específica sobre o assunto.
Um rápido giro pela internet mostra que raça de gente somos. Hutus e Tutsis em Ruanda, árabes na França, nordestinos no Sudeste, turcos na Alemanha, latino-americanos na Espanha, curdos entre o Iraque e a Turquia, judeus ortodoxos que oprimem palestinos e que, agora, sofrem em seu próprio país agressões de imigrantes russos neonazistas (alguns deles judeus). Um nazi arrependido de São Paulo declarou ao jornalista Roberto Cabrini que existem células neonazistas em São Paulo, na Região Sul e, pasmém, na Bahia! O preconceito faz crer que só pode ser no oeste baiano. Muita plantação de soja transgênica…
Fale com o cobrador somente o necessário
Como não têm que dirigir ônibus, os cobradores acabaram não merecendo das empresas aqueles adesivos ao seu lado pedindo aos passageiros que evitem puxar conversa. Claro, sua desconcentração no trabalho não vai causar batidas, atropelamentos e freadas buscas (que, aliás, acontecem mesmo com os motoristas de boca e ouvidos fechados). O máximo que pode acontecer é ele se perder ao contar moedas de $0,05, quando já estava lá pelos R$37,50, e ter que jogá-las de novo sobre a banca e recomeçar do zero, porque alguém que está no ponto bateu na carroceria perguntando se o ônibus, linha Barra-Praça da Sé, passa pelo Rio Vermelho.
Mas outro dia, enquanto aguardava o troco em pé ao lado do cobrador, fiquei pensando no que é ser a pessoa física encarregada de retirar de cada passageiro R$2 (quase 0,5% do salário-mínimo) por uma viagem de ônibus, que atrasa, está superlotado e não pára de chacoalhar, graças ao motorista, que não pode falar com os passageiros, mas está autorizado a fazer barbeiragens no trânsito. Sem falar que o cobrador é o funcionário “destacado pela empresa” para entregar todo o dinheiro, que ele contou com tanto carinho, em caso de assaltos.
Enquanto o ônibus e minha cabeça vão viajando, um homem sobe no coletivo e pergunta se “vai pela Cardeal”. O cobrador, impaciente desde o início, balança a cabeça positivamente, e recebe uma bateria de perguntas complementares, se o ônibus vai até o final da Cardeal, se vira a direita no final e se lá, depois da virada, existe um semáforo. Quase me intrometi para perguntar quanto tempo o semáforo fica vermelho e qual a numeração das casas da esquina, antes de que o cara se decidisse a passar pela borboleta.
Obviamente, era alguém que não tinha intimidade com a área e precisava retornar lá. Mas para o cobrador é só mais um chato que faz perguntas cretinas enquanto ele tem que arranjar troco para o centésimo panaca do dia que não tinha uma nota de R$ 2 no bolso.

